20 DE NOVEMBRO: CONSCIÊNCIA NEGRA E O RACISMO SUL-BRASILEIRO

Notícias 22/11/2018

CONSCIÊNCIA NEGRA E O RACISMO SUL-BRASILEIRO
Artigo de Jeruse Romão, militante do movimento negro e assessora do mandato 

 

Definitivamente no Brasil, o período eleitoral de 2018 enterrou um dos mitos mais resistentes da história do país: o mito da democracia racial.

Embora o discurso crítico do movimento negro contra o racismo tenha soado distante dos brasileiros e das brasileiras durante décadas, estas eleições não deixaram dúvidas sobre a vitalidade do racismo e de todas as suas formas. Vimos a afirmação do racismo institucional (nas escolas e na segurança pública, especialmente), do racismo religioso, do racismo biológico, do racismo cultural, e todos estes combinados com a violência, com o genocídio, com a segregação, com a hierarquização de lugares, com a negação de direitos e a filiação às ideias eugênicas,higienistas e branqueadoras.

O racismo brasileiro, vínculo ao estatuto colonial, informa constantemente que o projeto de abolição é inconcluso, inacabado e sustentado na ideia da naturalização da inferioridade subalterna dos negros e das negras, mantidos nas regiões periféricas dos lugares de decisão e de vivência social. O racismo contemporâneo criminaliza a história e a cultura de matriz africana, e criminaliza também os sujeitos delas.

O presidente eleito afirmou certa vez que um dos seus filhos nunca se casaria com uma negra, revivendo as velhas práticas. As populações negras, indígenas, LGBT+, as mulheres são os sujeitos cujas políticas estão marcadas nas histórias que seus corpos representam. São sujeitos que foram coisificados pelo mercado e pela moralidade cristã.

Por esses motivos, Zumbi dos Palmares se faz tão necessário ser revivido. E mais do que isso, merecem os negros e as negras militantes do Brasil um pedido de desculpas pela omissão de parte da sociedade brasileira por ter insistido que nossas desigualdades se deviam a assimetrias de
classe, desconsiderando raça como uma categoria hierarquizante. 

O estado de exceção dialoga com o estatuto da colônia, e agora está exposto. A engrenagem da política de direita no Brasil se alia às velhas oligarquias, que precarizam a vida dos negros para que sejam primeiro dominados pela violência e depois para que a violência justifique o genocídio e o extermínio. Novamente. Por esses motivos, Palmares não nos foi tão necessário.

Imagem: A GUERRA DOS PALMARES, ÓLEO DE MANUEL VÍTOR, 1955